Festa de São Sebastião: um patrimônio cultural de Dom Joaquim e região

Por Maria Cecília Alvarenga

Uma homenagem do Programa Polos de Cidadania da UFMG à celebração de São Sebastião

São Sebastião, segundo a tradição católica, é o Santo protetor contra a peste, a fome e a guerra. Sua celebração é tradicional não apenas em Dom Joaquim, mas em toda a região. Assim como aqui, outros municípios, como Alvorada de Minas, Conceição do Mato Dentro e Sabinópolis, também realizam a tradicional novena e celebram, em vinte de janeiro, a festa do Santo.

Esta devoção, que se estende no território, tem assento na cultura popular por meio das teias simbólicas e de significação que são elaboradas em estreita relação com as próprias condições materiais de vida da população.

Neste sentido, entende-se que tal tradição se coaduna aos modos de vida rural e aos meios de produção ligados à pecuária extensiva e às atividades agrícolas de subsistência. Sendo São Sebastião um Santo que protege as criações e que provém a abundância, sua devoção remete à busca da sobrevivência e da prosperidade das famílias e comunidades. Secularmente e ainda hoje, para os trabalhadores e trabalhadoras da terra, o trabalho - de braço e enxada – foi e continua sendo o único meio de vida. Dependentes unicamente da própria força de trabalho para sobreviver, e suscetíveis às variações climáticas, às enfermidades e às pestes animais, a devoção ao Santo é uma forma de se proteger diante das vicissitudes da vida.

A história da Festa de São Sebastião, realizada há aproximadamente 104 anos pela família Furbino - conforme informa a memória oral familiar - corrobora esta interpretação.

Isso porque, segundo os moradores do Sítio Furbino, a celebração remonta a uma promessa feita pela avó dos atuais festeiros devido a uma dívida que colocava em risco a propriedade rural por meio da qual se obtinha o sustento da família. Sendo assim, devota de São Sebastião, a matriarca pediu ao Santo que se ele “derramasse sua graça” para pagar o que a família devia - sem que precisassem entregar a fazenda - ela colocaria o nome de Sebastião no filho que trazia no ventre, e realizaria, anualmente, a novena dedicada ao Santo, hasteando-lhe a bandeira e servindo, no último dia da novena, os doces a quem viesse até ali rezar e celebrar. Tendo sua graça alcançada, a família se fez cumpridora da promessa, que vem sendo realizada anualmente, de geração a geração.

A celebração, que teve origem na região de São Thomaz (um lugarejo pertencente ao município de Carmésia), passou, há mais de duas décadas, a ser realizada no Sítio Furbino, em Dom Joaquim, visto que algumas das filhas da matriarca, convertidas ao protestantismo, abstiveram-se do culto aos santos. Com isso, as netas e netos, moradores do Sítio Furbino, trouxeram de São Thomaz a bandeira de São Sebastião e assumiram, desde então, a responsabilidade sobre a novena e a celebração.

Sendo assim, de 11 (onze) a 20 (vinte) de janeiro, acontecem diariamente as celebrações. Os primeiros nove dias são marcados pela novena, na qual os fieis rezam o terço e realizam o leilão. No dia 20 (vinte), último dia da novena, dia de São Sebastião, celebra-se a festa, sendo realizado o hasteamento da bandeira. Cavaleiros de várias localidades marcham em cavalgada para receber bênçãos. Trata-se da Benção dos Cavaleiros. Em seguida, serve-se o famoso pão com molho, que é sucedido pelo bingo. Findado o bingo, são servidos os doces – de leite, de figo, de mamão e arroz doce. Este momento, que é tão aguardado pelos devotos, acabou por popularmente dar o nome à festa.

Assim, iniciada em onze de janeiro e encerrada no dia vinte, a celebração dedicada ao Santo é conhecida por todos na localidade como a Festa do Doce, em menção aos tradicionais doces oferecidos pela Família Furbino àqueles que vêm junto a eles celebrar. E é por meio da fé, da devoção e das oferendas que os Furbino, além de pedir proteção para o próximo ano, manifestam a gratidão a São Sebastião, que ano após ano, concede-lhes graças e faz prosperar a vida no lugar.

A Festa de São Sebastião, expressão máxima do catolicismo popular local, cheio de referências simbólicas para a família Furbino - como de prosperidade e proteção - encontra forte ressonância em toda a comunidade. Embora não seja o Padroeiro local, posto este ocupado por São Domingos, na esfera do íntimo da fé e da devoção, que é compartilhada por muitos, é São Sebastião o Santo de maior expressão.

Como bem cultural que possui profunda ancoragem no tempo, bem como extensão no território, não há duvidas de que a devoção, e, por conseguinte, a celebração de São Sebastião, trata-se de um patrimônio cultural imaterial local. E o patrimônio, como se sabe, não possui titulares específicos, quer seja institucionais ou pessoais. Trata-se de um bem sedimentado na memória, estruturador das identidades e dos laços comunitários, pertencente, portanto, a toda coletividade.